O diagnóstico do influenciador Lito Sousa com a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), que causou uma grande consternação entre fãs e seguidores, colocou em evidência uma enfermidade rara e progressiva e despertou a curiosidade sobre um agente bastante diferente daqueles normalmente associados às doenças: o príon. O Conselho Regional de Química da 12ª Região (CRQ-12) se solidariza e acompanha com atenção a repercussão do caso. Também aproveita para ampliar o conhecimento da população sobre as características dessas proteínas.

Diferentemente de vírus e bactérias, os príons não possuem DNA ou RNA. Eles correspondem a formas anormais de uma proteína encontrada naturalmente no organismo. O problema ocorre quando essa proteína modifica sua estrutura tridimensional e passa a induzir outras proteínas normais a também assumirem uma conformação inadequada.

O fenômeno provoca uma espécie de “efeito dominó molecular”. Com o acúmulo dessas proteínas mal dobradas, ocorre a degeneração progressiva dos neurônios. Na DCJ, o processo pode causar perda de memória, alterações cognitivas e comportamentais, tremores, dificuldades de coordenação e comprometimento dos movimentos. Isso em curto espaço de tempo, o que deixa ainda mais dramática a situação dos pacientes.

Outro aspecto que chama a atenção é a elevada resistência dos príons. Processos convencionais de limpeza, desinfecção e esterilização podem não ser suficientes para inativá-los. Por isso, instrumentos que entram em contato com tecidos considerados de maior risco demandam protocolos específicos de descontaminação, que podem combinar agentes químicos e condições especiais de autoclavagem. A incineração em altas temperaturas também é capaz de destruí-los.

Essa resistência, entretanto, não significa que uma pessoa com DCJ transmita a doença pelo convívio cotidiano. Abraços, beijos, apertos de mão ou o compartilhamento do mesmo ambiente não representam formas de transmissão. Os cuidados especiais se concentram principalmente na manipulação de determinados tecidos e materiais potencialmente contaminados, inclusive em procedimentos médicos, autópsias e preparação do corpo.

A inativação dessas proteínas exige processos químicos rigorosos combinados a temperaturas elevadas. Para materiais potencialmente contaminados, protocolos específicos podem associar:

– Hidróxido de sódio ou hipoclorito de sódio em altas concentrações;

– Autoclavagem a temperaturas de 121 °C a 134 °C, em condições controladas;

– Incineração, especialmente de materiais descartáveis contaminados.

O caso também reacendeu comparações com a chamada “doença da vaca louca”. Embora ambas envolvam príons, elas não são a mesma enfermidade. A Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) acomete bovinos. Já a exposição ao agente responsável pela EEB foi relacionada a uma condição humana específica, denominada variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ), diferente da forma clássica da doença.

Em Goiás
A Universidade Federal de Goiás (UFG) tem participação científica relacionada à DCJ, com pesquisas e da estrutura de investigação da doença no Brasil. Segundo informações divulgadas no Diário da Manhã, representantes da UFG, do Ministério da Saúde e do Laboratório de Saúde Pública de Goiás (Lacen-GO) se reuniram, em setembro de 2025, para alinhar protocolos relacionados ao diagnóstico laboratorial da DCJ.

A iniciativa buscou fortalecer a capacidade brasileira de investigação de uma doença considerada rara e de difícil diagnóstico. Ainda segundo a reportagem, uma pesquisadora da UFG, Ana Paula Fontana, participou de um estudo publicado em 2026 que analisou a mortalidade por DCJ no Brasil entre 1996 e 2024. O trabalho examinou a evolução temporal e a distribuição geográfica dos óbitos relacionados à doença no país.

 (Love Employee/Getty Images)