02/09/2026 02:09:20
O câncer é um dos grandes desafios da Medicina. De acordo com estimativas feitas em 2019 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é a primeira ou segunda principal causa de morte antes dos 70 anos de idade em 112 dos 183 países analisados, ocupando, também, o terceiro ou quarto lugar em outros 23 países. O Sistema Único de Saúde (SUS) gastou mais de R$ 3,8 bilhões no tratamento do câncer em 2022, segundo dados mais recentes. Mas há uma boa notícia a caminho. E, literalmente, é preciso estar de ouvidos bem abertos para ela.
Uma pesquisa desenvolvida há cerca de dez anos na Universidade Federal de Goiás (UFG), porém, pode ajudar a mudar parte dessa realidade ao atacar um dos principais desafios da oncologia: descobrir a doença o mais cedo possível. Liderado pelo professor Nelson Roberto Antoniosi Filho, do Instituto de Química da UFG, o estudo criou o Cerumenograma, método que utiliza uma amostra de cera de ouvido para identificar alterações metabólicas relacionadas ao câncer.

A técnica parte de uma característica aparentemente simples do organismo. Como produto de secreção, o cerume concentra compostos relacionados ao metabolismo. A partir de análises químicas, os pesquisadores identificaram padrões capazes de diferenciar indivíduos com e sem câncer. O trabalho avançou até demonstrar algo ainda mais relevante: a possibilidade de detectar alterações que aparecem antes da própria formação do câncer. O estudo mais recente foi publicado em abril de 2025 na revista Scientific Reports, do grupo Nature.
Antes de chegar ao câncer, a utilização da cera de ouvido para identificar doenças já havia apresentado resultados promissores na própria pesquisa da UFG. A equipe observou que pessoas com diabetes apresentavam maior quantidade de corpos cetônicos no cerume, substâncias associadas às alterações metabólicas provocadas pela doença. Com o avanço dos estudos, os pesquisadores conseguiram identificar casos de diabetes e pré-diabetes e, ainda, diferenciar pacientes com diabetes tipo 1 e tipo 2. Foi justamente o sucesso dessa etapa que levou Antoniosi e sua equipe a investigar se o método também poderia ser aplicado ao câncer, diante das evidências de alterações metabólicas relacionadas ao desenvolvimento da doença.
“Hoje efetuamos não só o diagnóstico do câncer, mas o diagnóstico de toda a gênese do tumor”, explica Antoniosi. Segundo ele, o método consegue reconhecer duas etapas anteriores à doença propriamente dita: a inflamação hipermetabólica e a displasia. “Com relação a primeira etapa de surgimento do câncer, é como se estivéssemos diagnosticando o processo no estágio menos dois.”
Essa antecipação pode representar uma mudança importante no tratamento. Quanto mais cedo um tumor é identificado, maiores são as possibilidades terapêuticas e de remissão. Antoniosi destaca que “em oncologia as chances de cura são enormes quando o diagnóstico é efetuado nos estadiamentos 0 e 1. Imagine o sucesso que teremos diagnosticando o estágio -2?”.
O Cerumenograma também apresentou capacidade de diferenciar o metabolismo associado a tumores malignos daquele encontrado em tumores benignos, cistos e metaplasias. Outra aplicação estudada é o acompanhamento dos pacientes durante o tratamento. Pela variação dos marcadores encontrados na cera, os pesquisadores conseguem observar quando o metabolismo começa a retornar ao padrão considerado saudável, indicando a remissão da doença.
Resultado (praticamente) certeiro
Segundo Antoniosi, os resultados obtidos atualmente pela equipe atingem acurácia de 97%. O professor ressalta, porém, que o Cerumenograma ainda é uma pesquisa e não deve ser utilizado como substituto dos métodos diagnósticos já consolidados. Em condições experimentais, uma única amostra pode ter o resultado analisado em cerca de cinco horas.
A abrangência também chama atenção. O teste não aponta em qual órgão está localizado o tumor, mas, conforme o pesquisador, responde às alterações metabólicas associadas a diferentes tipos de câncer. O estudo publicado envolveu 531 voluntários diagnosticados com câncer e 203 participantes inicialmente classificados como grupo de controle. Entre estes últimos, três tiveram resultado positivo no Cerumenograma e avaliações clínicas posteriores identificaram alterações compatíveis com risco oncológico nos três casos.
Próximo passo: validação clínica
Depois dos resultados obtidos até agora, a pesquisa entra em uma etapa decisiva. A equipe prepara o ensaio clínico em que as amostras chegarão ao laboratório sem que os pesquisadores saibam previamente quais pertencem a pacientes com câncer e quais são de pessoas sem a doença.
Na fase anterior, explica Antoniosi, os pesquisadores conheciam previamente a condição dos participantes e verificavam se o resultado do Cerumenograma correspondia ao diagnóstico já estabelecido. Agora, a lógica será invertida. “As amostras que chegam ao laboratório são desconhecidas e nós temos que dizer: essa tem câncer, essa não tem câncer”, afirma.
A validação será fundamental para que a tecnologia possa avançar no caminho regulatório. Segundo a UFG, os próximos passos envolvem justamente os processos necessários para uma futura validação perante a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Ministério da Saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS).
Antoniosi estima que, caso o diagnóstico precoce proporcionado pelo método seja incorporado em larga escala, o impacto econômico poderia chegar a dezenas de bilhões de reais por ano, principalmente pela redução de tratamentos complexos decorrentes da descoberta tardia da doença. A intenção da equipe, afirma, é justamente evitar que a tecnologia se transforme em um exame de alto custo.
“A gente quer que isso chegue às mãos do povo. A gente quer que isso chegue ao SUS, a gente quer que isso chegue ao planeta todo”, afirma. A ambição é fazer com que, no futuro, entregar uma pequena amostra de cera de ouvido para análise possa se tornar tão rotineiro quanto realizar um hemograma. “A gente espera muito que no futuro as pessoas façam um Cerumenograma como um exame de rotina.”
O Conselho Regional de Química da 12ª Região (CRQ-12) parabeniza o professor Nelson Roberto Antoniosi Filho e toda a equipe de pesquisadores e estudantes. Para o Conselho, trabalhos dessa natureza demonstram a contribuição essencial da Química para o avanço da ciência e para a criação de soluções capazes de produzir impactos diretos na saúde e na qualidade de vida da população. O CRQ-12 reforça ainda seu apoio e reconhecimento às pesquisas desenvolvidas em Goiás que unem conhecimento científico, inovação e compromisso social.
Voluntários
Você pode ajudar a salvar vidas. O Projeto Cerúmen da Universidade Federal de Goiás necessita de voluntários para participação em projeto de pesquisa que visa, via análise do cerúmen (cera de ouvido), desenvolver novos e melhores diagnósticos para desordens metabólicas como Diabetes, Câncer, de Alzheimer e Parkinson.
A participação é aberta a quem tem mais de 18 anos, saudável ou não. O voluntário responderá a um questionário disponível na página https://lames.quimica.ufg.br/p/faq-projetocerumen, com os dados necessários e agendará sua coleta na sede do Lames, no Câmpus Samambaia, ao final. Em caso de dúvidas, o contato por WhatsApp (62 98130-9039). O Projeto Cerúmen é aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFG (CAAE 57880516.9.0000.5083).