29/06/2026 29:06:27
“A ciência não conhece fronteiras, e a dedicação pode abrir portas mesmo diante das maiores dificuldades”. (Sumbal Saba)
Ela é dona de um grande feito. A professora do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (IQ-UFG), Sumbal Saba, conquistou o terceiro lugar do prêmio “Ella Innova en Ciencia América Latina e Caribe 2026”, com o projeto “Selênio contra o Esquecimento: Inovação em Química Medicinal Verde para Combater a Doença de Alzheimer”. O prêmio é uma iniciativa da Organização para Mulheres na Ciência para o Mundo em Desenvolvimento (OWSD, na sigla em inglês) e pelo Ponto Focal para a América Latina e Caribe do Conselho Internacional de Ciência (ISC, na sigla em inglês). O nome de Saba entre as vencedoras foi divulgado no último dia 27/5, no perfil do instagram da OWSD Brasil.
Nascida no Paquistão e radicada no Brasil há mais de uma década, Saba construiu uma trajetória marcada pela excelência acadêmica, pela superação de desafios e pela busca de soluções inovadoras para problemas que impactam milhões de pessoas em todo o mundo. A docente desenvolve pesquisas nas áreas de Síntese Orgânica, Química Verde e Química Medicinal, com foco no desenvolvimento de moléculas com potencial terapêutico para doenças neurodegenerativas, câncer e outras enfermidades de grande relevância clínica.
O CRQ-12 procurou a professora e ela gentilmente contou um pouco mais de sua vida e pesquisa, com exclusividade. Abaixo, a pesquisadora fala sobre sua formação, os desafios de atuar na ciência internacional, o reconhecimento conquistado por seu trabalho e as perspectivas para o desenvolvimento de novos tratamentos inspirados nos princípios da sustentabilidade. Ela também compartilha uma mensagem de incentivo para estudantes e jovens profissionais que desejam construir uma carreira na Química e contribuir para a transformação da sociedade por meio da ciência.
CRQ: Conte-nos sua história na Química: onde fez a sua faculdade, porque escolheu essa profissão e como surgiu o tema da pesquisa?
Sou brasileira, mas nasci no Paquistão. Fiz minha graduação e mestrado em Química Orgânica na Universidade de Peshawar. Em 2012, tive a oportunidade de fazer doutorado fora do país, com uma bolsa international oferecida pelo CNPq e TWAS. Eu escolhi o Brasil, e fui para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) estudar Química Orgânica. Foram quatro anos de muito aprendizado. Aprendi técnicas avançadas de pesquisa, aprofundei minha formação em síntese orgânica e ainda aprendi o português em pouco mais de um ano. Terminei o doutorado, voltei ao Paquistão por um período, depois retornei ao Brasil para um pós-doutorado também na UFSC. Cheguei a Goiânia na época da pandemia, passei em concurso, assumi o cargo em 2020, e desde então estou aqui na UFG.
A minha área de pesquisa concentra-se em Síntese Orgânica, Química Verde e Química Medicinal, com ênfase no desenvolvimento de moléculas biologicamente ativas com potencial terapêutico para o tratamento de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer, bem como diferentes tipos de câncer e outras patologias de elevada relevância clínica.
O trabalho baseia-se no planejamento e síntese, por meio de rotas sustentáveis e alinhadas aos princípios da Química Verde, de uma família de compostos organosselênio com propriedades farmacológicas promissoras. Essas moléculas atuam por mecanismos múltiplos, sendo capazes de inibir a enzima acetilcolinesterase, responsável pela degradação da acetilcolina, neurotransmissor fundamental para a comunicação entre os neurônios. Dessa forma, contribuem para a manutenção da transmissão neuronal, processo severamente comprometido em pacientes com doença de Alzheimer.
CRQ: Qual seu sentimento quando recebeu o prêmio e qual será sua contribuição futura?
Como mulher e mãe na Ciência, é uma grande satisfação receber este reconhecimento internacional pelo nosso trabalho de pesquisa. Esse reconhecimento reforça a importância da inovação em saúde associada à sustentabilidade. Atualmente, o mundo enfrenta grandes desafios ambientais e climáticos, tornando fundamental o desenvolvimento de novas tecnologias que contribuam não apenas para a promoção da saúde, mas também para a preservação do meio ambiente. Minha pesquisa busca integrar os princípios da Química Verde ao desenvolvimento de novos compostos bioativos com potencial terapêutico para doenças neurodegenerativas, câncer e outras enfermidades. Acreditamos que a inovação científica deve caminhar lado a lado com a responsabilidade ambiental.
Em termos de contribuição para a Química, nosso trabalho está fortemente alinhado à sustentabilidade e à Química Verde, temas que atualmente recebem atenção global. A sociedade enfrenta problemas cada vez mais complexos relacionados às mudanças climáticas, à poluição e à emissão de substâncias tóxicas provenientes de diferentes processos industriais.
Na Química, muitas reações podem gerar resíduos e vapores prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana. Por isso, nosso objetivo é desenvolver processos sintéticos mais seguros, eficientes e sustentáveis, promovendo uma ciência que cuide simultaneamente da vida, da saúde e da natureza. O composto mais promissor identificado pela equipe, chamado (Im), superou em atividade a galantamina, fármaco de referência atual no tratamento do Alzheimer; resultado que eu mesma considero robusto para atrair parceiros industriais
3. A senhora conhece alguma pessoa próxima que sofreu com essa doença? Qual a motivação?
Não tenho familiares diretamente afetados pela doença. Minha motivação está relacionada ao enorme impacto social do Alzheimer, uma enfermidade que afeta milhões de pessoas e suas famílias em todo o mundo e que ainda carece de tratamentos verdadeiramente eficazes.
O objetivo da pesquisa é contribuir para o desenvolvimento de alternativas terapêuticas inovadoras que possam minimizar os efeitos da doença, aliando eficácia farmacológica a métodos de produção mais limpos, seguros e sustentáveis. Dessa forma, buscamos gerar conhecimento científico com potencial de impacto real na qualidade de vida dos pacientes e na sociedade.
4. Para finalizar, deixe uma mensagem para aqueles que estão começando no ensino e no estudo da Química.
Minha trajetória é marcada pela determinação e pela superação. Quando cheguei ao Brasil, não falava português, mas, em pouco mais de um ano, aprendi o idioma e consegui construir uma sólida carreira acadêmica. Ao longo desse caminho, enfrentei os desafios de ser mulher, estrangeira e cientista ao mesmo tempo, transformando obstáculos em oportunidades de crescimento pessoal e profissional.
Acredito que minha história transmite uma mensagem importante para as novas gerações: a ciência não conhece fronteiras, e a dedicação, a perseverança e a paixão pelo conhecimento podem abrir portas mesmo diante das maiores dificuldades.
Para os próximos anos, minha expectativa, juntamente com a equipe de pesquisa, é avançar no desenvolvimento dos compostos promissores que estamos estudando. Nossa meta é que, em um horizonte de cinco a dez anos, pelo menos uma dessas moléculas, desenvolvida integralmente em uma universidade pública do Centro-Oeste brasileiro, alcance as etapas clínicas de avaliação. Essa perspectiva reforça o potencial transformador da ciência produzida no Brasil e demonstra como a pesquisa realizada em Goiás pode gerar soluções inovadoras capazes de beneficiar pacientes e contribuir para a saúde da população.
